Word of the Day

Friday, January 22, 2016

Sugerir mais subjuntivo com valor de dar a entender

Embora o acervo do museu seja virtual, portanto passível de recuperação por backup, os destroços do prédio sugerem que a visitação pública vá ser interrompida por longo tempo. 

Para mim, sugerir seguido de subjuntivo significa recomendar, querer, propor algo: sugiro que considerem o meu caso. Já sugerir seguindo de indicativo significa insinuar, dar a entender, fazer parecer. Para mim, os destroços do prédio dão a entender/sugerem/indicam/ que a visitação pública será/vai ser interrompida; do jeito que está escrito, é quase como se os destroços quisessem que os visitantes não aparecessem.

Wednesday, January 20, 2016

Ausência de adaptações "folheanas", desta vez

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2016/01/1725774-o-clima-no-diva.shtml

Já comentei, aqui, que a Folha adapta a ortografia deste jornalista português, mas interessante que não mexe no vocabulário. No texto em apreço, há duas palavras de uso raro no Brasil (pelo menos segundo a minha parca experiência): climatérico em vez de climático (E que a história, desde o começo dos tempos, me tinha ensinado apenas que nada existe de novo debaixo do sol. Brutais alterações climatéricas?) e glaciar em vez de geleira (Com os glaciares a derreterem (no polo norte, não no polo sul; mas divago) e as águas a devorarem a terra, não haverá futuro para ninguém.). Não entendo, é muito mais fácil um brasileiro entender fenómeno em vez de fenômeno (talvez até nem repare) do que alguma das palavras acima. Toca-se no que não tem necessidade e deixa-se o que poderia não ser compreendido por todos.

Glaciar, segundo o Houaiss, é de 1899 e climatérico relacionado com clima, de 1882. Interessante que ambas as palavras são de origem francesa. Tenho notado bem mais galicismos em Portugal do que no Brasil. Outro exemplo? No Brasil: tela (século XIII); em Portugal: ecrã (do francês écran). Esta o Houaiss nem registra, mas deve ter vindo de França, como preferem os portugueses, no século XVIII ou XIX.

Não que isto signifique muito, mas algum valor terá: o meu corretor ortográfico para português do Brasil não reconhece nem climatérico nem ecrã. Se ponho para português de Portugal, reconhece todas as palavras deste comentário.

Um exemplo colhido em 19 de fevereiro:
 
Eu não conhecia impreparado, só despreparado. Dos três dicionários brasileiros consultados, Houaiss 2009, Michaelis e Aulete digital, só o último registra o termo. Este dicionário português abona o adjetivo. Todas as quatro ocorrências de impreparad* (o asterisco indica que também entram na lista formas como impreparadas, impreparados, etc.) são de Portugal. Todos os sete livros que aparecem na primeira página do Google Livros são de Portugal (ou um de Moçambique), nenhum do Brasil. Portanto, julgo podermos afirmar que impreparado tem escassíssimo uso no Brasil, apesar de, é claro, o prefixo in (aqui na forma im) ser transparentíssimo para qualquer leitor.
 
Fugindo do assunto, poderia ter-se evitado nigger-hater, que não me consta tenha circulação em português, e ter-se optado por não passa de alguém que odeia/que tem preconceito contra negros ou algo parecido. Querendo ser muito fantasiosos, poderíamos inventar misomélano (miso - odiar + melano - negro, cf. melanina).

Sunday, January 17, 2016

Primus in orbe Deos fecit timor

"Primus in orbe Deos fecit timor (Petrônio). O medo criou o primeiro Deus. 

Eliminando a ideia de um Deus todo poderoso, praticamente o passado não pode ser entendido em qualquer questão histórica ou ontológica.

A tradução não é bem assim nem a implicação é a que se vê no segundo parágrafo. O correto seria No mundo o medo criou primeiro os deuses ou Foi primeiro o medo que criou os deuses no mundo. Primus (nominativo singular masculino) concorda aí com timor. Deos está no acusativo plural. Para corresponder à tradução do colunista, o original teria de ser Primum in orbe Deum fecit timor, em que primum é acusativo singular masculino, concordando com Deum, o que implicaria que os antigos romanos eram monoteístas!

Monday, January 11, 2016

Artigos antes de nomes de pessoa

Não é errado usar os artigos antes de nomes de pessoas, como muitas vezes pensa quem é do Norte e Nordeste do Brasil, mas é verdade que, por escrito, mesmo quem os usa espontaneamente na fala, como é o caso, pelo que sei, dos nascidos em toda a região sul, em São Paulo e em Minas Gerais, os evita na escrita, talvez para retirar o ar de familiaridade que os artigos conferem às pessoas mencionadas. No entanto, desta vez um artigo escapou à jornalista, que não o usou em outros casos na mesma matéria: O ortopedista procurado pela Beatriz chegou a prescrever um mês sem celular.

Saturday, January 9, 2016

Wednesday, January 6, 2016

Karaokê e skate

Para tal, almoçaremos em mesas na calçada, beberemos cerveja, venderemos barato nossa alegria, seremos gentis com quem não nos conhece, trocaremos intimidades e ainda terminaremos num karaokê. 

Pode escrever caraoquê. Está registrado, por exemplo, no Houaiss 2009:

caraoquê
n substantivo masculino
1    tipo de espetáculo no qual qualquer pessoa pode cantar ao microfone, acompanhada pelos músicos da casa ou por fundos instrumentais gravados
2    aparelho sonoro ou audiovisual que reproduz fundos instrumentais de músicas para acompanhar quem canta ao microfone
2.1    função semelhante a essa em aparelhos com outras finalidades, como o DVD
3    estabelecimento comercial que oferece esse tipo de entretenimento, ao vivo ou com aparelhos

Ao seu lado, um grupo de adolescentes com ar festivo, um deles carregando um skate, faz com que ele pareça ainda mais só. 

Parece que os portugueses preferem caraoque, o que indica que para eles a sílaba tônica é a penúltima. Essa incerteza sempre se dá com palavras japonesas, já que a sílaba tônica japonesa não é forte como a nossa e cada pessoa/língua/tradição a ouve de forma diferente. Quem quiser saber a pronúncia original japonesa, é só escutar aqui.

Mesma coisa com skate. Pode escrever esqueite:

esqueite
n substantivo masculino
Regionalismo: Brasil.
1    Rubrica: ludologia.
prancha estreita (de madeira ou resina, p.ex.) dotada de dois eixos com duas rodas cada, sobre a qual alguém se equilibra e desloca, podendo executar saltos, figuras etc., com movimentos e postura semelhantes aos do surfe
2    Rubrica: esportes.
o esporte assim praticado

Monday, January 4, 2016

Enriquecer-se

O mercado de bens de significado (marketing existencial) cresce a cada dia, a (sic) medida que a sociedade se enriquece.

Primeira vez que vejo enriquecer como pronominal neste caso. O Houaiss também não o registra:

n verbo
 transitivo direto e intransitivo
1    fazer ficar ou ficar rico
Exs.: o trabalho não costuma e. ninguém
 enriqueceu vendendo terrenos
 transitivo direto, intransitivo e pronominal
2    Derivação: sentido figurado, por extensão de sentido.
tornar(-se) maior, melhorando; tornar(-se) abundante; aumentar, desenvolver(-se)
Exs.: resolveu e. o texto com frases de efeito
 seu vocabulário enriqueceu(-se) com a leitura
 transitivo direto
3    Derivação: sentido figurado.
tornar mais belo; ornar, enfeitar, abrilhantar
Ex.: o vestido de seda enriquecia-lhe a figura
 transitivo direto
4    tornar nobre; enobrecer
Ex.: boas ações enriquecem a vida
 transitivo direto
5    elevar a concentração de um componente puro de (uma substância, um produto)
 transitivo direto
6    adicionar elementos que elevam o valor nutritivo de (um alimento)


Enriquecer-se aparece na acepção 2, não na 1.

Encontrei três exemplos do verbo enriquecer-se pronominal no Córpus do Português:

No anno seguinte nasceo Ennio, (46) que em versos mal limados deu ouro de que Virgilio confessava que se enriquecia.

Considerai quantos estão banidos da sua pátria pela sua própria avareza, que é ainda maior tirania, porque a fim de se enriquecerem se expõem a mil perigos, sofrendo infinitas incomodidades.

o Sincorá, onde se enriquecera com a compra de diamantes, viera à Bagagem continuar na mesma especulação, e examinar e explorar este novo descoberto.

Saturday, January 2, 2016

Crase

precisa rumar em direção à uma economia intensiva em tecnologia. 

Este não tem noções de crase. Perdoa-se o erro ao pedreiro João da Silva, mas a um jornalista? Seu instrumento são as palavras!

Thursday, December 31, 2015

Háže

Takže kvůli svým geopolitických (sic) cílům Amerika háže blízkovýchodní křesťany z okna?

So, because of its geopolitical aims America throws Middle East Christians out the window?

The funny thing is the word háže, which is dialectal. Standard Czech requires hází. Háže has no place, in my opinion, in a serious publication like the weekly magazine Echo.

Tuesday, December 29, 2015

Advocacy in Romanian

I saw a Romanian program where they used the word advocacy all the time. What's up with that? What is wrong with promovare, pledoarie, avocatură, sprijinere or propaganda? And they pronounced it adVOkasi.

It seems to be used a lot in Romanian: https://www.google.ro/?gws_rd=ssl#q=advocacy




Saturday, December 26, 2015

Dar spoiler

Num dado momento do filme (não vou dar spoiler), o xerife, um tal de Mallick, diz para o Jon (Mikkelsen):

Novidade para mim. Não sabia que tinha chegado ao português. Não seria melhor não vou contar o fim/a história, como sempre se disse?

Thursday, December 24, 2015

Adaptações "folheanas"

Parece que a Folha adapta um pouco os textos de um jornalista português para o português do Brasil. Vejo neste artigo, por exemplo, que aparece câmera em vez de câmara. Indo na contramão, parece que se esqueceram de adaptar subtil para sutil, talvez por subtil ter entrada em dicionários brasileiros (mas não gozar de muito uso no Brasil, demostrado por umas cinco ocorrências brasileiras entre 275, no total, do Córpus do Português) e de usar um sinônimo para possidente, palavra que não encontrei em nenhum dicionário brasileiro, só neste e neste, ambos portugueses. Esta é outra fonte portuguesa onde se usa o termo possidente. Brasileira até agora não achei.

Notei que a Amazon faz a mesma coisa com autores não americanos que escrevem em inglês. Adaptam-lhes a ortografia e um termo ou outro para o inglês americano. Será que não querem permitir que o leitor pense um pouco?

Eles adaptam mesmo. Neste texto, em vez de aparecer melómeno e registar, como se escreve em Portugal, aparecem os brasileiros melômano e registrar.

Sunday, December 20, 2015

Coalização

Com a coalização que o elegeu (Cambiemos) em minoria na Câmara e no Senado argentino, o novo presidente precisa do apoio de congressistas ligados ao kirchnerismo para aprovar medidas que permitam reorganizar as finanças do país.

Acabei de descobrir coalização e imaginei que se tratava de erro. Até então só conhecia coligação e coalizão. Vejo que o Houaiss 2009 registra a palavra e explica que é o mesmo que coalizão.

Friday, December 18, 2015

Líder de healthcare

Outro participante do debate, Marcos Boscolo, líder de healthcare da consultoria KPMG no Brasil, fez menção à crise econômica em sua fala.

Duvido que a maioria dos brasileiros saiba o que é o?/a? tal healthcare? Nem tem obrigação nenhuma de saber. A língua do país, que eu saiba, ainda é o (mau) português.

Wednesday, December 16, 2015

Oba-oba da ênclise

Leão Tolstói abre seu "Anna Kariênina" afirmando que todas as famílias felizes parecem-se entre si; já as infelizes o são cada uma à sua maneira.

Os brasileiros devem achar, por a ênclise não ser muito usada na fala espontânea no Brasil, que basta usá-la para o texto ficar mais formal. Não é bem assim, há regras para isso, não é usar a torto e a direito. Na frase acima o correto seria afirmando que todas as famílias felizes se parecem entre si, já que que, aí conjunção integrante, é fator de próclise.

Pelo menos o trecho mostra como essa questão de colocação pronominal há décadas (séculos?) não faz parte da gramática interna que todo falante nativo traz consigo. Pois bem, mas então não é melhor seguir o próprio instinto e usar a próclise, que seria a escolha espontânea do brasileiro e o correto no fragmento acima? Por que querer complicar tanto quando se escreve? Insegurança? Hipercorreção?

Esta discussão lembra-me (ênclise bem usada) a fatídica frase encontrada em vários elevadores no Brasil: "Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado no andar". Outros já implicaram com ela antes de mim: https://www.google.com/search?q=verifique+se+o+mesmo+encontra-se&ie=utf-8&oe=utf-8

Outro exemplo recolhido dias depois: A resposta é tanto mais difícil e desalentadora, pois o Brasil é hoje país em que impera a "micropolítica" do conchavo e da autopreservação –e onde acumula-se imenso déficit da "macropolítica" dos grandes interesses nacionais.

Mais outro: apenas publica-se o tempo todo imagens e mensagens   

Mais outro: Mal fecham-se as portas e já estou atônito.

Talvez o pior de todos: A “irjaa” não tornou-se um conceito corrente no islã, e foi derrotada pela ideia de que a fé tem de ser obrigatoriamente declarada.  

E dois exemplos no mesmo parágrafo: Também a Europa encontra-se longe de um cenário harmonioso. Se a crise econômica parou de piorar, os desafios vêm de uma eventual saída do Reino Unido da dinâmica de integração continental (o que a imprensa em língua inglesa chama de "Brexit"), do atordoante fluxo migratório e do tipo de liderança que a Alemanha está disposta a exercer na União (dilema que os próprios alemães esquivam-se de responder).

Encontrei mais este: Mas por que os coxinhas agora tornaram-se tão notórios? e mais este: porque a estrutura de classes sociais tornou-se mais complexa e diferenciada. Achei este artigo motivado pela intenção de entender o que é coxinha, não a comida, que já conheço faz tempo.  

Mais um: Ainda segundo o advogado, a defesa argumentará que a prisão deu-se por "meio enganoso de prova".

Um de 6 de fevereiro de 2016: Talvez até por motivos diversos dos elencados acima, como uma incapacidade de se organizar fora de um ambiente estritamente profissional ou pela sensação de que, como encontra-se "em casa", esteja trabalhando de menos quando na verdade já o faz demais. 

Mais um: Passaram-se nove anos ao longo dos quais Cabral reelegeu-se e emplacou o governador Luiz Fernando Pezão para sucedê-lo.   

Colhido em 30 de março de 2016: Espero que ninguém sinta-se ofendido a menção a porcos. Esse texto homenageia "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, onde os porcos são protagonistas.

Exemplo encontrado em 27 de abril de 2016: Em homenagem a Cabral, há uma avenida com o seu nome, onde encontra-se uma estátua em alusão ao descobrimento do Brasil, doada pelo governo brasileiro, em 1941.

Do mesmo artigo do onde encontra-se, acima: cujos restos mortais encontram-se no imponente Mosteiro dos Jerónimos, também na capital portuguesa.  

De um famoso provedor de internet: Basta conferir a sua Fatura Digital que encontra-se anexa.
Uma vírgula aí também não faria mal.

Visto em 18 de abril de 2017 na Isto É: Alexandrino contou que reuniu-se com o filho do ex-presidente e lhe disponibilizou três suportes. Já que é para "caprichar", por que não escreveu também disponibilizou-lhe?

Três pérolas numa única oração

Até então morava no Rio e havia saído há pouco do enlace com um militar, com quem casou-se em outubro para se separar em junho.

Corrigindo: Até então morava no Rio e havia pouco saíra do enlace com um militar, com quem se casou em outubro e de quem se separou em junho.
Ou: Até então morava no Rio e havia pouco se separara de um militar, com quem esteve casada de outubro a junho (do ano seguinte)/apenas oito meses
entre várias outras redações possíveis e melhores

Com quem casou-se (sic) em outubro para se separar em junho parece querer dizer que se casou em outubro com a finalidade de já se separar em junho, oito meses depois. Duvido que alguém tenha a intenção de permanecer tão pouco tempo casado.

E no final da matéria:
Cogita correr a vereadora em São Carlos.

Isto é português? Não conheço ninguém que fale assim. Para mim é tradução literal do inglês (americano) to run for no sentido de candidatar-se a algo, pleitear algum cargo público. Também se corre a presidente, a governador, etc.?

Monday, December 14, 2015

Auto-justificar (sic)

Quando a festa, a comida, a bebida, a confraternização universal precisam da participação de todos para se auto-justificar, e, principalmente, é preciso comprar, comprar, comprar nem que seja uma lembrancinha? 

Por que será que o Acordo Ortográfico de 1990 não estipulou que se devem escrever todos os prefixos, sem exceção, sempre seguidos de hífen? Muita gente já hifeniza mesmo, embora não seja previsto nem pela ortografia anterior nem pela atual. Daí o erro passaria a acerto.

Outro exemplo aqui: Do outro lado, temos os anti-marxistas ortodoxos. O filme é mera caricatura esquerdista da empregada santa e dos patrões vis que exploram o suor do proletariado.

Outro exemplo: Em 20 anos, talvez possamos tele-transportar o próprio paciente. Não se trata de prefixo, mas entra na mesma regra.

Mais um: H.L. Mencken (1880-1956), pelo contrário, usou a crônica para fazer o que mais gostava: autopsiar políticos (vivos), escritores (vivos), clérigos (vivos) e a humanidade semi-viva que ele contemplava em volta.

Mas por que será que, no mesmo texto, desta vez se lê corretamente: o gosto pela escrita na "primeira pessoa" e a autodepreciação como manual de sobrevivência.  

Saturday, December 12, 2015

Vamos combinar

Vamos combinar que a mais elementar lógica manda dizer que quem votou na lista da oposição quer defenestrar Dilma.

Nunca tinha visto homem, ainda mais de idade, expressar-se assim. Até então só ouvia vamos combinar da boca de mulheres jovens, mas vamos combinar que eu não sei nada porque já faz seis anos que estou fora do Brasil.

Thursday, December 10, 2015

Tuesday, December 8, 2015

Em quaisquer produtos

Questionada sobre o uso de formol em outros tipos de produto, que não carne bovina in natura, a empresa afirmou não utilizar conservante em quaisquer produtos.

Que frase arrevesada é esta? Será que o autor da pérola acha que português é como inglês (padrão), que não admite dupla negação? Não seria muito mais simples e bonito ... conservante em nenhum produto?