Word of the Day

Friday, March 13, 2009

Desprezar urina

Qual não foi o meu espanto e a minha incompreensão quando me perguntaram se a minha mulher já tinha desprezado a urina? Fiquei alguns segundos sem entender e perguntei se isso queria dizer se ela já tinha urinado no potinho que lhe tinham dado para fazer o exame, ao que se respondeu que era isso mesmo. Esse significado que lhe dão no meio laboratorial não aparece em nenhuma das acepções de desprezar, ainda que com um pouco de esforço se veja a relação. Não é problema meu se assim se comunicam entre si, já que é sabido que cada profissão, cada meio, tem seu jargão próprio, mas o que não acho certo é falar assim com o público, que não é obrigado a entender os usos que inventam. Além disso, desprezar a urina não me parece uma forma muito mais eufemística, muito mais indireta, de dizer urinar, já que o substantivo urina continua a ser usado. Enfim, essa frase hedionda não preencheu nenhuma lacuna na língua e só vem a confundir os não-iniciados.

Thursday, March 12, 2009

Copiocultura

É bom saber sobre a formação de palavras, isso pode salvar você de enrascadas de vez em quando. Ontem fui pedir uma guia para um exame laboratorial documentado pelo médico, cuja secretária escreveu copiocultura. Já tinha lido o que dizia o papel, copiocultura, o que me deixou intrigado. A moça do escritório que emite a guia procurou o código da bendita copiacultura no computador e naturalmente não achou, porque estava mal redigida a palavra. Eu disse que talvez fosse coprocultura, porque copro significa fezes em grego, o mesmo elemento que aparece em coprolalia, coprofobia, coprofagia e coprofilia. Sugeri à moça que procurasse coprocultura, e não é que apareceu o código do exame. Fiquei tão feliz que nem me preocupei mais por coprocultura ser um híbrido (metade grego, metade latim).

Wednesday, March 11, 2009

Carteirada

Para mim uma carteirada seria jogar uma carteira (de preferência da escola) na cabeça de alguém em sinal de raiva, mas descobri que não é isso. Carteirada significa

(car.tei.ra.da) Bras.

sf.

1. Exibição de documento profissional ou de identidade, com o propósito de obter vantagem de alguma espécie: O político deu uma carteirada para fugir do flagrante.

2. Tentativa de obter vantagem pessoal através da alegação de que se é uma pessoa importante ou que se possui vínculos com pessoas importantes: Apesar da carteirada e do escândalo, ele não conseguiu entrar na festa.

[F.: carteira + -ada1.]

Acho que carteirada é o que fazia o personagem intepretado por Leonardo Di Caprio no filme Prenda-me se for capaz, baseado na história real de um americano que fingia ser o que não era para obter vantagem pessoal (no caso dele ganhando milhões de dólares). Da definição se desprende que qualquer impostor/malandro/safado/falsificador de cheques dá carteiradas então.



Tuesday, March 10, 2009

Futurismo

Além do lheísmo, do oísmo (de minha autoria até que se prove o contrário) e do gerundismo, agora é a vez de falar do futurismo, que aqui não tem nada a ver com projeções para o futuro. Chamo futurismo ao uso do futuro, pelo que tenho ouvido sempre com ir + infinitivo, quando não se quer dar uma resposta desagrádavel a algum pedido. Exemplo típico: Tem remédio para asma? - Hoje não vou ter.

Friday, March 6, 2009

Prosápia

"E se caminharmos ainda mais para trás, para os anos 80 e para os anos 70 (antes do no Público), penso que não é prosápia afirmar que na maior parte das publicações havia então muito menos cuidado do que hoje."

Prosápia significa

(pro. .pi:a)

sf.

1. Atitude ou comportamento orgulhoso; VAIDADE

2. P.ext. Discurso, palavreado enfático, esnobe

3. P.ext. Ostentação no vestir

4. Linhagem, ascendência, genealogia (prosápia aristocrática; prosápia humilde)

[F.: Do lat. prosapia]

Em espanhol e italiano há prosapia, só com o significado 4 que aparece em português


Thursday, March 5, 2009

Gue, gui, que, qui

The new spelling rules affected my classes yesterday for the first time. I had to explain that gue, gui, que and qui have each two pronunciations (since we haven't used the ¨since January 1 anymore) and that the foreign learner can't know when to say them one way and when to say them another way. In the past I've only had to explain the intricacies of the x, now there's a bigger mess in the language, of which I felt a little ashamed as if it had been my fault.

Tuesday, March 3, 2009

Especial

The adjective especial has acquired a euphemistic sense in Brazil. If you talk about tamanhos especiais, that means the clothes are for heavier people, whereas crianças especiais are children with mental problems.

Monday, March 2, 2009

Epididymis

A student of mine taught me the word epididymis today. I like it the way it rolls off my tongue. It reminds me of those fabulous Mary Poppins' words. Its etymology is also interesting: epi means upon, above and didymous means twins, pair, which is a euphemistic way to refer to the it, if you know what I mean.

Sunday, March 1, 2009

Enxaguar a comida

Extraído de O Guardião de Mémorias, traduzido do inglês: No congelador, encontrou seis pacotes de biscoitos de chocolate com menta. Comeu um punhado, enxaguando-os com leite bebido diretamente na garrafa de plástico. Consigo ver o inglês por trás desta frase: washing it down with milk... Só que wash down não é enxaguar aqui e seria asqueroso se o fosse. Uma palavra mais apropriada teria sido regar.

Saturday, February 28, 2009

Corretor da nova ortografia

Este corretor ortográfico é bem interessante. Insere-se o texto em português e opta-se pela ortografia antiga ou nova (tanto a portuguesa quanto a brasileira). Também faz a correção do espanhol. Deve-se usá-lo com um pouco de cautela, porque às vezes reconhece como erros abreviações, nomes próprios e estrangeirismos que não estejam incluídos na sua base de dados.

Thursday, February 26, 2009

Vamos sair hoje ou amanhã?

Depois de mandar a mensagem de texto Vamos sair hoje ou amanhã? a um amigo, ocorreu-me que esta poderia ser ambígua. O sentido que lhe diz foi que poderíamos sair tanto hoje quanto amanhã, que a mim me era indiferente, contanto que saíssemos. Mas a mensagem também poderia soar como É hoje ou amanhã que vamos sair, já me esqueci. Acho que é por isso que algumas línguas têm duas palavras para ou, como o basco (edo ou ala) . Edo é usado no primeiro caso e ala no segundo.

Wednesday, February 25, 2009

Ácrata

Esta palabra me la ha enseñado Mario Vargas Llosa en su libro El Paraíso en la Otra Esquina. Significa: Partidario de la supresión de toda autoridad. Ya lo había intuido analizando los elementos que componen el vocablo, pero quería una confirmación de alguna fuente más fidedigna. He encontrado que en portugués también existe ácrata.

Tuesday, February 24, 2009

Vos os

«Somos muy parecidos en costumbres y en la forma de ser, aunque también tenemos nuestras diferencias», explica Sánchez. «A vos no os gusta el mate, que no es una bebida. Bueno sí, en Argentina nadie toma mate porque tenga sed. Es más bien una costumbre, como rascarse»

Aquí el argentino confundió el pronombre vos, singular, usado en Argentina y en muchos otros países, con el pronombre vosotros, plural, que se usa en España. O se diría en singular A vos no te gusta o en plural A vosotros no os gusta. Eso es lo que pasa cuando uno intenta incorporar características lingüísticas que no hacen parte de su dialecto.

Sunday, February 22, 2009

Híndi

É assim com acento que a grafa José Saramago no seu último livro A Viagem do Elefante, o que torna a palavra paroxítona. O curioso é que na mesma frase aparece o termo bengali, sem acento, o que supõe tratar-se de palavra oxítona. Este dicionário e o Ciberdúvidas só registram hindi sem acento, logo, oxítona. Será que Saramago lhe pôs acento porque em espanhol não tem acento (ele vive em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, que pertencem à Espanha) e é paroxítona enquanto bengali leva acento na nossa língua irmã, o que a transforma em palavra oxítona. O mais estranho é que me custa pronunciar hindi com acento na última sílaba, talvez pelo fato de estar muito mais familiarizado com Hindi em inglês, que leva acento na penúltima sílaba. De qualquer forma, percebe-se que a questão dos gentílicos "exóticos" em i é controversa tanto em espanhol quanto em português, com algumas palavras tendendo a paroxítonas e outras a oxítonas. É uma pena eu não saber como se pronuncia na língua original. A Wikipédia registra tanto hindi quanto híndi em português, mas não creio que ela se possa tomar como referência em questões linguísticas.

Saturday, February 21, 2009

Eggs and a Wall from Jerusalem — Haruki Murakami Speech

The whole speech of Haruki Murakami at the ceremony for 2009 Jerusalem Award can be found here:
http://www.47news.jp/47topics/e/93880.php

Some excerpts follow.
If we have any hope of victory at all, it will have to come from our believing in the utter uniqueness and irreplaceability of our own and others’ souls and from our believing in the warmth we gain by joining souls together.


Take a moment to think about this. Each of us possesses a tangible, living soul. The System has no such thing. We must not allow the System to exploit us. We must not allow the System to take on a life of its own. The System did not make us: we made the System.
That is all I have to say to you.


I wish he had just protested Israel, Soviet Union, USA, state, machinery of violence or whatever leftists are wont to criticise for overwhelming the powerless. According to Tatsuru Uchida, whose discernment I infinitely admire, Murakami talks about the language or symbols when he warns us not to get controlled by The System. Utterly uncomfortable and perverted. By that definition, The System, the language, created Murakami, the writer. Nothing comes out of nothing. If Murakami writes something at all, the writing owes its life to a previous life. There is nothing irreplaceable or unique in all this.

stress harder

In a book I was reading yesterday about soldiers being like normal people, except that they drink and smoke more: they stress harder. It was the first time I'd seen the word stress as a verb used in such a connotation. The closest meaning I can find for the verb is to subject to stress or strain, so it's a verb that would require a doer and a doee, which is not the case here. It's English verbing its nouns again.

Thursday, February 19, 2009

Mamão papaio

O sorveteiro acabou de me dizer que tem mamão papaio. Eu como não gosto de mamão, nem papaia nem papaio, escolhi outro sabor, mas o que ele disse me fez refletir. Por que será que usou mamão papaio em vez de mamão papaia? Talvez na sua concepção papaio é adjetivo que deve, portanto, concordar com o substantivo (mamão, masculino) a que se refere. Até que faz sentido.

Wednesday, February 18, 2009

que manteram-se

A cada dia que passa parece que tenho a sensação de que o português é uma língua estrangeira para os brasileiros. Olhem a pérola que encontrei hoje: EquipE, vitrinE e consolE também são algumas palavras que em PT-BR manteram-se na forma original. Sempre tive curiosidade do porquê de os portugueses as grafarem com "a" final.

O passado de manter é mantiveram e depois de que há próclise, logo que se mantiveram.

E a resposta à pergunta original: Em Portugal escrevem-se com a final porque são palavras femininas tanto em português quanto em francês e o português tem predileção por essa vogal no feminino. Já palavras masculinas em francês terminadas em e obtiveram (e não obteram!) um o em Portugal e várias vezes permaneceram inalteradas no Brasil: le contrôle - o controle (BR), o controlo (PT).

Sunday, February 15, 2009

El demonio vigila a la niña

En el libro El Paraíso en la Otra Esquina, de Mario Vargas Llosa, aparece el nombre en tahitiano de un cuadro pintado por el personaje principal: Manao tupapau (El demonio vigila a la niña). No sé absolutamente nada de tahitiano, pero lo que me instigó fue el número de palabras en esa lengua: dos en tahitiano, que corresponden a cinco en español. Es obvio que la misma frase pronunciada en varias lenguas no tiene necesariamente (y casi siempre no tiene) el mismo número de palabras, pero para mí en tahitiano deberían aparecer por lo menos tres palabras: demonio, vigilia, niña, porque la frase precisa sujeto, verbo (que puede estar después del sujeto o en el fin de la frase dependiendo del idioma) y objeto. Una posibilidad sería que algún de estos términos ya incorporase el otro, pero lo encuentro poco probable y es la primera vez que lo veo en cualquier idioma. Otra posibilidad es que el autor, que no debe de ser versado en tahitiano, haya separado incorrectamente las palabras y la frase debería ser algo como Manao tupa pau.

Una colaboradora acaba de encontrar algo mucho más plausible: http://www.britishmuseum.org/explore/highlights/highlight_objects/pd/p/paul_gauguin,_manao_tupapau_w.aspx
En la traducción se podría optar por Vigilado por los espíritus (de los muertos).